Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

Um olhar sobre Miranda

 
            O arqueólogo Ernesto Vaz trabalha no GTL da Câmara Municipal de Miranda do Douro. Há já alguns anos que se dedica á investigação do património arqueológico da cidade, conhecendo-o melhor que ninguém. Muito amavelmente cedeu-nos todos os seus conhecimentos à cerca dos monumentos históricos da cidade.
No Castelo

                        
            Em 1509, o rei reconheceu a extrema importância dos castelos que faziam fronteira com a vizinha Espanha. Deveriam estar devidamente preservados, não podendo estar em ruínas. Para isso mandou Duarte d’Armas, que era um engenheiro militar e bom desenhador, desenhar o estado do nosso castelo.
            O castelo tinha cinco torres e, até ao estudo efectuado nos últimos anos, considerava-se que a torre que está parcialmente de pé e pode ser observada, era a torre de menagem (a torre mais alta, mais larga mais forte e que estava sempre no sitio mais alto, num ponto estratégico para permitir a visualização do inimigo e o comando das tropas), mas não é. A torre de menagem estaria localizada no canto sobre o estreito filamento de terra entre os dois rios que cercam a cidade e a protegem com os seus vales extremamente profundos: o Douro e o Fresno. Estes dois rios começaram logo por ser uma muralha natural, funcionavam como dois obstáculos para o ataque à cidade. A torre de menagem foi mandada construir por D. Dinis, fundador da cidade em 1286. Mandou engenheiros militares da ordem de Avis para orientar a construção do castelo.
            Em 1759 rebentou uma guerra, a Guerra dos 7 Anos, entre Inglaterra e a França devido às colónias. Portugal defendeu a Inglaterra e a França foi apoiada pela Espanha. E é por isso que Portugal é invadido pela Espanha. As armas utilizadas nestes conflitos já não são as armas elásticas (o arco, por exemplo) que se usavam quando o castelo foi construído. Nesta altura já tinha entrado em acção a pólvora.
            Na base da torre de menagem estavam armazenadas toneladas de pólvora. Durante o tiroteio que se deu entre as nossas tropas que estavam no castelo e as tropas espanholas que estavam no rio Fresno e, através do rebentamento de um canhão, propagou-se a explosão ao paiol que estava na torre. Arrasou todo o castelo à excepção da única torre que podemos ver parcialmente destruída. Terá morrido um quarto da população da cidade no contexto desta explosão. Todas as casas, cortinhas e ruas mais próximas do castelo foram também destruídas bem como parte da muralha. Os espanhóis, para impedir que o castelo fosse reconstruído, nos dias que se seguiram à explosão, começaram a deitar abaixo as partes mais importantes da cidade que não tinham ainda sido destruídas.
 
À entrada da cidade:
            As recentes escavações que aqui foram feitas vieram desenterrar a muralha que estava soterrada, pois, para que pudessem ser aproveitadas como quintais, nestas zonas foram feitos aterros de cerca três metros.
            É intenção da Câmara recomeçar a obra de investigação arqueológica e arquitectónica da muralha enterrada até à alcáçova, mas uma intervenção deste tipo é muito cara, demorada e sensível, pois naquele local encontram-se muitos dados arqueológicos do passado da cidade. Supõe-se que ali esteja enterrada uma centena de vitimas da explosão do castelo
            Seguindo esta muralha construiu-se uma muralha mais pequena, para reforçar a segurança, denominada barbacã. A barbacã constituía já um anteparo, uma pré – defesa da muralha principal, que data do século XIII. Podemos ver vestígios da barbacã, por exemplo perto da Costanilha, onde há uma muralha mais pequena que acompanha sempre a muralha principal durante mais de cem metros. A barbacã, que é paralela á muralha, é visível nos planos de Duarte d’Armas. Outra estrutura que foi identificada aqui, e que já foi confundida com uma calçada romana, foi uma calçada à antiga portuguesa, bastante gasta.
            O que aconteceu também aqui no século XVII foi a construção de um forte. Hoje, quando entramos na cidade de Miranda, temos a Avenida Aranda del Duero que no século XVII era o tal forte.
            Enquanto que na época medieval a entrada na cidade se fazia por estas duas torres, no século XVII, a evolução das armas e o aumento do seu alcance obrigaram que a defesa da cidade se fizesse de cada vez mais longe.
            Aqui na entrada, para além de vestígios imóveis, como vestígios da muralha e o passeio calcetado, foram também encontradas moedas e peças de cerâmica que, depois de feito o relatório científico da intervenção arqueológica, irão para o museu.
 
 
Pelas Muralhas – A rua do Postigo:

            Chama-se assim pois é uma porta mais pequena que lhe dá entrada. Esta porta não é inicial, é contemporânea do alargamento da muralha, prevendo o aumento da cidade que acabou depois por não acontecer. O primeiro Bispo de Miranda, D. Turíbio Lopes, que era castelhano, queria relacionar melhor a cidade com Espanha. Por isso mandou construir esta saída, pois era a porta de acesso mais directo à barca do Douro, à passagem para Espanha.
 
 
Jardim dos Frades Trinos:

            Em 1545 Miranda foi promovida a vila. Nela instalaram-se pessoas com elevado cargo militar. Os Bispos previam a promoção de vila a cidade e que Miranda crescesse urbanisticamente.
            Começaram então a construir-se novos edifícios mas, com o decorrer da actividade verificou-se que não havia espaço dentro da muralha original para construir o paço. Era, pois, necessário alargá-la para sul. Isto ocorreu nos finais do século XVI.
            Mas as previsões dos Bispos falharam, uma vez que Miranda nunca atraiu muita população. Passados duzentos anos vieram para Miranda os chamados Frades da Santíssima Trindade com a autorização do nosso rei D. João V. E, a pedido de um Bispo da cidade, instalaram-se na parte sul.
Inicialmente foram-lhes emprestadas casas para viverem provisoriamente enquanto se construía o convento e a igreja. Recentemente este convento foi transformado na Biblioteca Municipal. O habitáculo já não é visível, pois entrou em ruína.
            Como este espaço ficou vazio, os frades tomaram conta deste local, utilizando-o como cortinha onde cultivavam trigo e olival.
            O actual quartel da GNR surgiu 15 a 20 anos depois, servindo de quartel da infantaria de Miranda.
            Os Frades não permaneceram aqui durante muito tempo. EM 1834 deu-se uma importante revolução, e todos os conventos foram extintos. Este local passa então para as mãos de particulares, continuando este com o seu cultivo.
Há dez ou vinte anos atrás surgiu o Clube Desportivo do Mirandês que utilizava este espaço como campo de futebol. Mais tarde acaba por se mudar para fora das muralhas, sendo este espaço transformado num vazadouro de lixo a céu aberto.  
Para podermos construir este parque foi necessário realizar uma série de escavações arqueológicas e, debaixo do lago que agora lá está, á frente do bar, foi encontrado o único vestígio: uma forja que teria servido para forjar os sinos da Sé.
 
 
Aqueduto:

            Durante a Idade Média e depois de ser elevada a vila pelo rei, a cidade de Miranda do Douro esteve sempre em perigo de ser atacada pelos exércitos castelhanos. A população que vivia toda dentro dos muros da cidade necessitava de água potável em tempo de guerra e por isso encontramos poços por toda a cidade.
No século XVI, o grau de importância e o nível social dos novos habitantes assim como da própria cidade aumentou e, de repente mais do que para satisfazer as necessidades vitais da população, o aqueduto viria a dar outro estatuto à cidade, adequando-se não ao modo de vida humilde do povo mirandês, mas sim aos caprichos dos nobres, militares, religiosos e gente de grande importância que chegou àcidade.
Concluindo, o aqueduto foi construído por duas razões: abastecer a cidade do bem precioso e vital pois, à medida que a cidade ganhou importância, a sua população cresceu aumentando a necessidade de fornecer água a toda a gente. Por outro lado, foi edificado com o objectivo de corresponder às necessidades e caprichos da nova elite que aqui se instalara, gente de grande importância, como Magistrados, Provedor, Corregedor, gente de letras e artes, bacharéis, licenciados, notários, cónegos, almocreves, comerciantes e altas individualidades civis, militares e religiosas a culminar com o próprio Bispo.
O abastecimento de água a Miranda era imprescindível e inadiável.                          
                 
publicado por lamietierra às 15:16
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim

Número de visitantes...

Maio 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

posts recentes

As muralhas de Miranda do...

Alguns jogos tradicionais...

Dados gerais da cidade

Sé Catedral de Miranda do...

Castelo de Miranda do Dou...

Algumas considerações sob...

21 de Fevereiro, o dia da...

Perspectiva arquitectónic...

Economia

Parque Natural do Douro I...

Deixem o povo falar...


Free chat widget @ ShoutMix

links

arquivos

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

pesquisar